São Paulo

Eu não vivo São Paulo de forma épica, vivo São Paulo como a maior parte das pessoas vivem: sem aventuras ou muitos problemas de sobrevivência. Mas tenho o prazer de olhar pelas janelas e ver seus prédios e tentar construir suas histórias.

Eu poderia ler e aprender corretamente através de livros sobre a história da arquitetura da cidade, mas me agrada mais olhar os prédios e tentar imaginar as curvas antigas de construções que são, hoje, quadradas.

Ver o batente de madeira podre e olhar para os enfeites encaracolados esculpidos ou formados na pedra; imaginar a casinha colonial, de taipa, no lugar do palacete, e o palacete no lugar dos prédios de vidro.

Imaginar a cidade sem o viaduto feio, sem o córrego canalizado, sem o shopping. Imaginar a cidade mais simples de se andar, com o parque e as praças, com espaço pra viver na rua ao invés de trancado.

Sem a exclusão e com dignidade, sem pressa e com a apreciação.

Imaginar São Paulo como ela gostaria de ser e me sussurra nos ouvidos.

Um vô engrandece muita gente

Isto não é um réquiem ou um epitáfio. Isto não é um adeus. Isto não é uma prova de amor.

Isto é o que eu sei do meu vô Miguel. Que é tão grande que não cabe em sua altura e barriga. Que é tão lindo que, mesmo eu tendo um pai feio, consegui ser bonitinha.

[Mentira, meu pai é lindo. Ao seu modo.]

Meu vô, que é o único que eu tenho, teve duas filhas e dois netos. Quando casou com minha vó, ela estava grávida de 6 meses da minha mãe. Prafrentex, esse meu vô, já que não tinha nenhum sogro apontando uma arma pra ele porque minha bisavó era mãe solteira. Prafrentex essa minha bisavó.

Ele e seus dois irmãos arrajaram um terreno e toda a família foi morar lá. No puxadinho, fizeram três casas e a do meu vô é a do meio. Os três irmãos, filhos de um italiano comunista vermelhão, eram conhecidos como Irmãos Metralha porque sempre andavam juntos.

Minha vó fala que o seu Rafael era o melhor sogro do mundo, que foi como um pai pra ela. E é por causa dele que meu irmão se chama assim.

O seu Rafael e seus filhos faziam panfletos contra a ditadura. Arrajaram fuzis. Iam nos chão de fábrica explicar para os peões que eles eram explorados e que deveriam fazer greve. Queriam derrubar o governo militar. E o seu Aldo Rebelo, do Código Florestal, ia na casa deles pegar dinheiro para ajudar o partido e a revolução.

Meu vô trabalhou na Santa Marina, nos quentes fornos de vidro, e saiu de lá porque trabalhava durante a noite fria. E porque, sendo empregado, ele não conseguiria alimentar as filhas. Virou vendedor de linguiça, lavadeiro, taxista. Carregando trouxas de roupa, conheceu a minha vó Betis, que era costureira. Muito tempo depois, o filho mais dessa vó consegueria o telefone da filha mais velha do seu Miguel com o xaveco mais furado do mundo.

Meu vô era presidente de um time de futebol, o Nacional F.C. Era presidente, técnico, goleiro, tesoureiro, juiz. Num lance duvidoso em que aplicou uma falta, o jogador faltoso não gostou e correu atrás dele com uma faca. O vô Miguel correu e atravessou um córrego num pulo só.

Corinthiano, queria ter um moleque pra levar no tobogã do Pacaembu. Teve duas meninas corinthianas apaixonadas e as levou a jogos até pouco tempo. Quando minha mãe engravidou pela primeira vez, teve mais uma menina corinthiana pro seu Miguel. Quando engravidou pela segunda vez, teve um moleque que, com seis anos, disse ser são-paulino. Meu vô e minha tia deram o uniforme completo de presente. Ele até usou, mas logo se apaixonou por bicicletas e deixou o futebol de lado.

Meu vô não me levou nos jogos porque hoje em dia é muito perigoso.

Meu vô viu o Corinthians ficar 23 anos sem título. Foi no jogo de despedida do Pelé, lá no Maracanã.

Meu vô gosta de ir à praia. Minhavó Tereza ama. Iam sempre para Santos, acordavam cedo, faziam a farofa e percorriam a Rio-Santos. Voltavam todos salgados. Quando pode, comprou uma kitnet em frente a praia em São Vicente. Fui tantas vezes pra lá, foi onde aprendi a amar o mar. E a tomar raspadinha de groselha.

Por trabalhar muito, meu vô deu melhores condições pras filhas. Por trabalharem tanto, meus pais deram condições melhores pros seus filhos. E a gente morou numa casa com piscina. No primeiro Natal nesta casa, meu vô quis subir no colchão da piscina, desses infláveis. O vídeo que minha mãe fez tem meia hora de tentativas e muita gente rindo.

Aí, eu entrei na USP. Orgulho do vô. Acho que ninguém na família consegue falar biblioteconomia sem tentar duas vezes. Mas tô na USP, porra! Orgulhinho da família. Demorei um pouco pra seguir com meus verdadeiros objetivos na USP – fazer revolução – mas, quando comecei, durante a Ocupação da Reitoria, vi de cara a fragmentação do Movimento e da esquerda uspiana. Não desisti, até uma tarde fria. Estava na casa do vô e fiquei com preguiça de ir até a USP pra participar de uma audiência. Virei pro meu vô e disse:

– Vô, como é que eu vou fazer revolução se eu estou com preguiça de ir neste frio participar a reunião?

E ele me deu uma aula sobre revolução, conscientização, proletariado, movimento que eu só fui ter de novo com o Grespan, Ravenna e Terrível. E se eu não aprendi direito até agora é porque eu sou ou uma besta ou uma maldita idealista, que é quase a mesma coisa.

Meu vô é o chefe da família, senta na ponta da mesa no almoço. Quando senta para comer, todos sentam. E meu vô toma Domeq.

Eu tomei bastante cerveja com meu vô, mas não vou mais tomar. Álcool não faz bem, né?

Mas eu sei que ainda teremos uns almoços. E minha formatura. E um passeio de avião com meu irmão.

É o que eu sei, o que eu quero, é o que eu vou ter.

Amar é…[2] + A Maçã – Raul Seixas

“Scully:- As respostas estão lá, é preciso saber onde procurá-las…
Mulder: – É por isso que colocaram o “I” no FBI!”

 

(Arquivo X, episódio Piloto – 1993)

FBI: Federal Bureau of Investigation. Agência Federal de Investigação. Ainda bem que nunca traduziram a sigla, pelo menos não na série!

O fato é que eu queria respostas. Buscava a Verdade. Mas procurava no lugar errado. Isso acontece com todo mundo! O que importa é que consegui procurar no lugar certo.

Cheguei num ponto da minha vida e não sabia como. Foi como beber a noite inteira numa festa e acordar num quarto estranho, sem me lembrar de como cheguei ali.

Então, me absorvi em um trabalho de investigação. Percorri todos os meus passos ao contrário. E , revendo os posts destes últimos dias, percebi que ando atrás de respostas que eu já conheço, que tento assimilar os resultados de uma teoria criada por mim e posta em prática e, que minhas reações a ela não foram como as que planejei.

Avancei mais no passado. Com isso, arranjei lembranças, revisitei momentos de minha vida em que determinei o que eu quis para mim. Lembrei do que aconteceu, do porque, de como me senti.

E percebi que, quando criança, ouvi Raul Seixas e assisti Arquivo X demais! Tanto que criei minha própria definição para relacionamentos, namoros, casos, amizade e etc. E, compreendendo que estou apenas aprendendo na prática algo que o Raulzito e Mulder & Scully me ensinaram, ficou mais simples de entender o que eu quero e que me motiva!

O que eu quero para mim é algo difícil de ser encontrado. Quero alguém que seja livre para realizar seus desejos, mas que seja fiel à minha amizade. Não quero ninguém atrelado aos meus desejos, pois não me prenderei a ninguém; e, sendo fiel, não terá nenhum impedimento em ser verdadeiro comigo, não mentirá para proteger seus interesses porque eu jamais o impedirei de fazer o que quer. Seja o que for, mesmo que me doa. Simplesmente porque ninguém tem o direito de impor seus caprichos a nenhum ser livre.

Paris

Sem querer esnobar ou ser arrogante, mas é que preciso falar de Paris. Digo, não só Paris,  mas sobre todos os seis meses e um dia que passei fora. Tanta coisa aconteceu! De altos, baixos, da alegria suprema à mais profunda tristeza. Como ocorre todos os dias, mas lá parecia que todos os nervos estavam à flor da pele e todas as emoções eram mais sentidas, mais exacerbadas.

E em Paris, tive as maiores alegrias! As maiores! Foi um respiro, flores, raízes! Voar! Mesmo que grudada ao selim de uma bicicleta. Inclusive foi a última vez que andei de bicicleta. Meu, a última vez que andei de bicicleta foi sob a Torre Eiffel, na beira do Sena! Há exato um ano atrás…

De Paris, guardo o riso, a alegria incontida jorrada em gritos histéricos e juvenis ao avistar uma torre de ferro escondida atrás de uma árvore. Ah, e se tratando de Déia, não poderiam faltar pulos! E muitos pulos, pulinhos e pulões.

De Paris guardo a sensação dos pés presos à terra, da sensibilidade na ponta dos dedos das mãos que pedia por toque para sentir o relevo da cidade.

As lágrimas com vida própria que escorriam pelo rosto no fim do dia que passamos na Disney, exatos dez anos e meio depois da primeira vez que fui ver o Mickey em Orlando. É, eu fui uma criança feliz por ter ido à Disney aos meus 11 aninhos. E fui uma criança feliz por ter ido à EuroDisney aos meus 21 aninhos. E espero ir à Disney japonesa antes dos 31aninhos!

Guardo a tristeza infinita ao ver a Torre Eiffel do alto do Arco do Triunfo no último passeio do último dia. Saber que demoraria muitos e muitos anos para tornar a ver a Cidade-Luz dos amantes silenciou o riso e não permitiu que eu deliciasse o momento da chegada em Londres, quando a lua cheia enfeitava o céu, entre o acertivo Big Ben e a vigilante London Eye. Íamos à pé, eu e meu irmão, para a casa de meu primo, andando pela Waterloo Bridge, quando parei no meio desta, olhei a cena e percebi que o restante da estadia se transformaria em nostalgia.

E, de fato, foi a partir deste dia que eu fiquei triste, calada e introspectiva com maior freqüência. Não se resumiam mais à terrível TPM. Fiquei arredia e passei vários dias enclausurada por vontade própria dentro de casa, ouvindo músicas que acentuavam a tristeza de estar longe de casa.

Mas hoje quero lembrar das alegrias! Reviver o sabor do pão francês francês,  o vento nos cabelos no passeio de bicicleta, as placas na língua incompreensível, as piadas no Louvre, as canções, o nascer do sol…

Ah meu pai! O nascer do sol… O céu escuro irrompendo em luz rósea, amarela, laranja. As nuvens brancas tingidas de sol listrando o azul suave… Meu pai-zinho… Está tudo registrado em foto, mas aquela alegria intensa no alvorecer só eu a tenho…

E é isso que rememoro hoje: há um ano atrás, estive em Paris! E não houve um momento sequer que o riso deixou meu rosto, e não houve um momento em que eu não sentisse um cálido abraçar do vento e um aconchego na alma. Tive Paris como quem tem um amante…

Bem, sempre terei Paris…

Luzes eternas da cidade-luz…