- O senhor não sabe o quão perigoso é abrigar viajantes desconhecidos? Como sabe que não irei matá-lo? – sabia que não usava um argumento muito original, mas queria saber como o rapaz reagiria.
- E a senhora? Não sabe o quão é perigoso para uma dama passar a noite no meio da floresta? E não me é desconhecidas, pois conheço muitas histórias suas, Mestra. – ele respondia sorrindo, como se aquele diálogo fosse uma brincadeira, um desfiando o outro.
- Explica-me, senhor, como posso passar a noite na casa de quem nem o nome sei? E tu também não me conheces, sabes apenas histórias que devem ser exageradas.
- Tens razão no fato de não conhecer-me. Sou Alexandre, filho de Luís. Minha família habita estas terras há séculos. Sou o segundo filho de meu pai e vou me casar no primeiro dia da primavera com a filha única do senhor proprietário de terras vizinhas as nossas. Porém, em relação ao fato de não conhecer-te, estás enganada, pois as histórias podem ser exageradas, mas o caráter não. E sei que és uma pessoa boa porque se não fosses, não teria perdido teu tempo e já terias tentado me matar.
O sol começava a se pôr e Apocrypha percebeu que aquele rapaz permaneceria irredutível. Resolveu acabar com aquele diálogo, já que teria que andar mais um pouco com ele.
- O senhor deseja mesmo que eu passe a noite em sua casa, mas não acredito que seja apenas por cortesia a uma mulher sem teto para dormir.
- A senhora está certa, Mestra. Espero que possas me ensinar teus conhecimentos, pois toda forma de conhecimento é valiosa e os teus mais ainda porque nos ensinam a ter esperanças e amor pelos nossos.
Apocrypha embainhou a espada e prendeu-a ao cinto.
- Rendo-me a sua vontade, senhor Alexandre. – curvou-se – Apenas não me chame de mestra, pois não o sou. Sei da vida e do mundo tanto quanto o senhor e não terei muito que lhe ensinar.
- Se assim desejas, não a chamarei de mestra, apesar de assim considerar-te. Mas, vamos, pois a noite não tardará a cair e terei pouco tempo para que aprender o que sabes.
- Dá-me apenas licença para recolher minhas coisas. – Apocrypha retornou à árvore onde deixara sua mochila e nela guardou o livro, a pena e o vidro de nanquim. Apagou a pequena fogueira, pôs a mochila nas costas e jogou a capa de viagem por cima.
- Deixa-me levar sua mochila, senhora Apocrypha, por cortesia. – Alexandre estendeu a mão para receber a mochila, sorrindo.
- Tens certeza de que é por cortesia? – Apocrypha perguntou rindo.
- Sim, confia em mim, é por cortesia. – Alexandre respondeu também rindo.
- Agradeço a atenção, senhor Alexandre, mas já é do hábito carregá-la. Sinto-me estranha sem ela, como se algo estivesse em falta no meu corpo.
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